terça-feira, 11 de novembro de 2008

Pobreza

Deitada na calçada suja,
Coberta de poeira e moscas,
Com a boca sem dentes aberta,
Escancarada para o mundo indiferente,
Jaz a pobreza.

Infecta, imunda, porca,
Doente de umas vinte doenças venéreas,
Limpando as fezes com a mão,
Procurante um quitute no lixo,
Ou algo para tomar um trago,
Mais parece um bixo.
Não.
Pobreza é gente como a gente.

O mundo gira em torno dela.
Passam homens sérios,
Carrancudos, ocupados,
Homens de boa família,
E a pobreza continua ali:
Caída.

Em um momento de desespero,
Ela nos puxa o calcanhar,
Nos bate na cara,
Grita em nossas orelhas.
Nós não sentimos,
Não vemos,
Não ouvimos.

Pergunto-me,
Nesses dias quentes em que o suor da velha seca
E faz os trapos colarem naquilo que os médicos
Ainda arriscam chamar de pele:

Quem há de beijar a boca podre da probreza?

Vou ainda mais longe:

Alguém ousará fazê-lo?

4 comentários:

Rosangela A. Santos disse...

Nossa que bonito!!

Adorei ..

Abç.

Ellen Regina - facetasdemim disse...

Vim agradecê-lo pelo comentário lá no facetas. Seus elogios me incentivam bastante. Obrigada.

juranha disse...

grande poeta
orgulhoso de você , meu caro

Simone Santana disse...

Maravilhoso poema.

Parabéns!