quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Nação

Ibiajara não esquece.

Vivia na tribo.

Comia carne de onça e quati.

Muito beiju e mandioca.

Tinha irmão, pai e mãe.

Um dia chegou a morte,

Toda vestida de feridas

Pretas,

Fedidas,

Horríveis.

Metade da tribo caiu.

Irmão, pai e mãe.

Cunhapora não esquece.

Índia bonita, sadia.

Carne forte, morena.

Sabia trançar como ninguém.

Vivia feliz com o marido.

Um dia chegou o abismo,

Sedento da pureza de olhos em lágrimas.

Pervertido,

Safado,

Nojento.

Nunca mais houve pureza.

Foi roubada de si mesma.

Potira não esquece.

Menina meiga, inteligente.

Sabida, persistente.

Corria atrás das cotias na mata.

Brincava e ria aos largos.

Um dia a terra pegou fogo.

A fumaça invadiu a mata.

Pegou as crianças da tribo.

Pequenas,

Chorosas,

Pobres.

Viver queimando os dedos e as ventas.

Triste destino de flor chamuscada.

Piatã não esquece.

Guerreiro valente, forte.

Conhecia o verde das folhas das árvores.

Perseguia os inimigos na mata.

Era índio bravo.

Um dia sentiu dor,

Vergonha, mágoa.

Piatã mostrou tacape.

Lutou,

Bateu,

Morreu.

Fraca força antiga

Dos homens que não tinham medo.

Piatã não foi esquecido.

Ibiajara, Cunhapora, Potira, Piatã.

Ninguém esquece.

Sempre pensando na vida.

Sempre pensando

Nas campinas verdes,

Nas matas escuras,

No Sol amarelo,

Nas flores brancas do povo

que se foi para bem longe.

Família morreu.

Tribo sumiu.

A felicidade se foi

Voando

como o derradeiro papagaio de sua espécie.


Sumiu.

E é por isso que o índio tem

Os olhos tristes perdidos

Nas águas escuras dos rios.

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