segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Eleição
tranquilamente pelas ruas
de minha cidade
quando sem mais nem menos
trupiquei
numa montanha de papel.
A montanha se ergueu
e me disse com voz
profunda e tenebrosa:
"Tens de escolher!"
Sobressaltado estaquei
sem poder sequer me mover.
A montanha, sem aviso,
Abriu a boca e cuspiu
nas paredes das casas,
na calçada, na rua,
no poste elétrico.
Nisso, o cuspe desfez-se em
números.
Números os mais diversos,
números coloridos,
grandes e pequenos,
gordos e magros,
números terríveis
que se descolaram da parede
e correram,
os afiados dentes mostrando,
me perseguindo.
Eu fugi, desesperado.
O exército de números
infernais
me perseguia,
ardentes com seus dentes pontiagudos.
A montanha gargalhava,
rindo do meu desespero
e repetia várias vezes
com a mesma voz terrível:
"Tens de escolher!"
Eu fugi, fugi, fugi
e, sem saber como,
me achei num largo saguão.
Os números estacaram atrás de mim,
os olhos malévolos
me devorando com lascívia.
Saída da escuridão
surgiu uma caixa preta
de olhos verdes, amarelos e vermelhos,
repleta de números.
Eu já não conseguia controlar
a minha tremedeira.
A caixa se aproximava lentamente,
vagarosamente,
arrastadamente.
Me olhou profundamente com um
feio olho verde
e expeliu um grito monstruoso!
"TI-RU-LI-RU-LI!!"
Abriu a boca e me engoliu inteiro.
Quando acordei,
tinha um sino em meu pescoço
e comia pasto
em meio a uma grande manada.
Eu havia me transformado
em gado.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Nação
Ibiajara não esquece.
Vivia na tribo.
Comia carne de onça e quati.
Muito beiju e mandioca.
Tinha irmão, pai e mãe.
Um dia chegou a morte,
Toda vestida de feridas
Pretas,
Fedidas,
Horríveis.
Metade da tribo caiu.
Irmão, pai e mãe.
Cunhapora não esquece.
Índia bonita, sadia.
Carne forte, morena.
Sabia trançar como ninguém.
Vivia feliz com o marido.
Um dia chegou o abismo,
Sedento da pureza de olhos em lágrimas.
Pervertido,
Safado,
Nojento.
Nunca mais houve pureza.
Foi roubada de si mesma.
Potira não esquece.
Menina meiga, inteligente.
Sabida, persistente.
Corria atrás das cotias na mata.
Brincava e ria aos largos.
Um dia a terra pegou fogo.
A fumaça invadiu a mata.
Pegou as crianças da tribo.
Pequenas,
Chorosas,
Pobres.
Viver queimando os dedos e as ventas.
Triste destino de flor chamuscada.
Piatã não esquece.
Conhecia o verde das folhas das árvores.
Perseguia os inimigos na mata.
Era índio bravo.
Um dia sentiu dor,
Vergonha, mágoa.
Piatã mostrou tacape.
Lutou,
Bateu,
Morreu.
Fraca força antiga
Dos homens que não tinham medo.
Piatã não foi esquecido.
Ibiajara, Cunhapora, Potira, Piatã.
Ninguém esquece.
Sempre pensando na vida.
Sempre pensando
Nas campinas verdes,
Nas matas escuras,
No Sol amarelo,
Nas flores brancas do povo
que se foi para bem longe.
Família morreu.
Tribo sumiu.
A felicidade se foi
Voando
como o derradeiro papagaio de sua espécie.
Sumiu.
E é por isso que o índio tem
Os olhos tristes perdidos
Nas águas escuras dos rios.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Primavera
O branco singelo da margarida
Refulge no teu largo sorriso luminoso,
E do verde claro da grama
Pintou-se a minha alma com a tua paz.
Das flores amarelas do Ypê
Vestiu-se o teu corpo para alegrar-me,
Enquanto o profundo azul do teu céu limpo
Encheu o meu olhar de carinho e amor.
No teu jardim florido achei-me perdido
Em um milhão de novas sensações,
E não quero jamais longe de ti
Encontrar-me novamente.
Com as cores que você me deu
Compus a minha felicidade
Em uma alegre aquarela de flores.
Desabrocho cotidianamente
No amor que sinto por ti
Em um turbilhão de novas cores
Nunca antes vistas pelo olho humano.
Enfim,
Sou feliz.
Foi você quem trouxe a minha primavera.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Intimidade
quero um abraço apertado,
quero um sorriso largo,
quero as suas graças e encantos
sempre comigo.
Moça,
quero um beijo apaixonado,
quero uma mão amiga,
quero a beleza e a juventude da vida
sempre comigo.
Mulher,
quero um ouvido atento,
quero uma cabeça pensante,
(porque duas cabeças são melhores do que uma),
quero seu amor,
quero sair com você,
quero levar você pra valsar entre as estrelas,
quero levar você pra passear no cosmos,
entre o brilho de sóis perdidos
e a negritude do éter espacial.
Quero me banhar no teu corpo
e mergulhar fundo na tua alma
e sentir
que não seria possível haver lugar melhor
para um velho errante como eu
que a intimidade carinhosa do seu ser.
Eu quero
você sempre comigo, menina-moça-mulher,
porque sou velho,
sou menino,
sou confuso.
Porque não sou mais eu.
Porque somos um
desde o primeiro "eu te amo" que dissemos.
E porque sou feliz por isso.
Acalanto
de sentir-se leve, leve, leve!
Um sorriso que não some
mesmo nas mais escuras melancolias.
Felicidade é ter alguém que lhe acalante,
mesmo quando já se é homem de barbas.
Porque os homens de barbas também choram.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Um dia muito especial
Noturno
É noite.
A Lua se eleva amarela no éter negro,
esquadrinhando os céus
como o olho de um ciclope de cabeça preta.
Tudo é silêncio:
a cidade jaz em coma profundo,
resplandecendo através de inúmeros quadradinhos brilhantes.
Nem uma estrela mostrou a cara hoje.
Pergunto-me a razão;
descubro, reflito, chateio-me e penso:
“A luz elétrica apagou o céu”.
O pretume me sufoca.
Desespero-me, agito-me:
um coro de mil vozes de viúvas grita ensandecido em meu estômago.
Não agüento o fardo e fecho os olhos.
Sinto que vou cair.
Subitamente, você aparece
e me acende o céu da mente,
que então refulge
iluminado por um bilhão de rojões multicoloridos.
Um sorriso me sorri sincero.
Já não há cidade, céu, estrelas ou Lua.
Sua mão repousa sobre a minha fronte
e meu coração bate feliz.
Realmente, por que precisaria eu de estrelas?
Tenho um sol ardendo brando em meu peito;
Luz que me escapa do interior pelas pontas dos dedos
e me provoca a escrever estes versos.
Encontrar-se em outro e ter outro em si
é uma sensação maravilhosa!
Hoje nada me falta:
estou contigo.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Hotel
Hotel
O medíocre de um pode ser o extraordinário de outro.
Quem poderá dizer se viver não é, simplesmente, viver?
Trabalhar, ganhar meu sustento, ter conforto para mim e minha família,
realizar meus propósitos.
Ser bom,
minha meta.
Ser útil,
meu desejo.
Ser feliz e fazer feliz,
meu ideal.
Viver é respirar o ar que outros já respiraram, sabendo que no futuro outros respirarão o ar que nós respiramos, e não se preocupar demais com isso:
porque o que virá cuidará de si,
devendo nós apenas deixar o quarto em ordem
para o hóspede agendado
para depois do nosso "check-out".
Não sou panfletário.
Não levanto bandeiras.
Sou idealista sem pensar nos meus ideais
porque eu sou meus ideais
e eles são eu.
